sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Apenas conversas 1




                                                               

Ele sentou. Os olhos estavam voltados para os brinquedos da sala. Queria brincar. Talvez não tivesse brinquedos ou mesmo com quem brincar (digo brincar, como brincávamos antigamente).

Depois de falar sobre todas as amenidades possíveis, começamos a falar sobre a família. Ou a falta dela.

-Minha mãe me jogou fora, dizem que ela não tinha condições de me criar. Minha avó me pegou para criar. Sim, eu tenho irmãos. Pai eu não tenho, não. Tem o D. , ele é o meu pai, ele mora lá na rua.
O menino não soube explicar muito quem era o "pai", um vizinho ou amigo, talvez.

Não identificou uma cor, um número, uma letra, uma forma geométrica, nada. Nomeou alguns desenhos preferidos, filmes de morte, luta e do Chucky, o que degola cabeças. Mas disse em seguida que não queria fazer isso com ninguém, "pois quem faz isso com o colega vai para o chão, debaixo da terra."

(...)

 Perguntei:
-Você não faz a atividades, não presta atenção no que a sua professora fala, parece que não gosta da escola...
- Mas eu não gosto mesmo. Eu venho porque sou obrigado. A minha avó me obriga a vir pra cá. Eu queria ficar em casa. Na rua, lavando carro, eu arrumo dois mil...
- Dois mil? Ah, não, dois reais, né?
-Dois não, tia. Três. Na verdade, eu ganho oitenta. Gasto tudo, compro besteira.
- Mas você não quer aprender a ler, entender o que você escreve, o que está ao seu redor? Crescer, estudar mais, trabalhar?
- Queria ser bombeiro. Mas se tiver que ler, escrever, quero mesmo é lavar carro.
- E quem vai ler pra você? Quem vai escrever? A sua avó? Ela não vai poder fazer isso para sempre...
- Vai sim, vai sim, ela vai ler e escrever para mim!
- Então me diga: porque você não faz nenhuma atividade?
-Por que eu não tenho lápis...
-Não seja por isso, eu te dou um!
- NÃO ME DÁ NÃO, NÃO QUERO NÃO, TIA! SE VOCÊ ME DER, EU VOU TER QUE FAZER O DEVER... E EU NÃO VOU FAZER...








quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Rubem Alves







"O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem" (Rubem Alves).