"Se eu pudesse por um dia, esse amor, essa alegria
Eu te juro, te daria, se pudesse esse amor por um dia..."
Tom Jobim
Trilha sonora do menino brilhante que me apelidou de "Astrônoma com formação em
homo sapiens".
Astrônoma com formação em homo sapiens. Estranho apelido? Para quem era chamada de veterana, nem tanto. Eu percebia que o menino, já um rapazinho, gostava de apelidar coisas e pessoas. Havia uma professora que era chamada de "exuberante", por conta de sua beleza e simpatia, além dos aspectos afetivos que certamente a embelezavam ainda mais. Duas professoras grávidas tinham seus respectivos filhos apelidados de Natércio e Frau Herta, creio eu pelo fascínio que o menino tem por novelas e televisão. As histórias, os "causos", sempre contextualizados ao mundo real/fictício da TV. Com o tempo, não precisei fazer muito esforço para entender sua linguagem ou forma peculiar de dizer o que sentia. Ficava claro que os sentimentos eram explícitos, vivenciados e demonstrados a todo instante. Estava ali, eram os olhos alheios que estavam fechados.
Meu primeiro contato significativo com P.R. (vou chamá-lo assim durante os posts) foi durante o atendimento na Sala de Recursos. No recreio dele, passava uns minutinhos na minha sala. Eu roubava um beijo no rosto e ele utilizava meu netbook para realizar rápidas pesquisas (novelas, músicas, imagens de atrizes da Rede Record). O início desse vínculo começou num dia em que P.R. entrou na SR e pediu uma revista para folhear. De repente, começou a cantar a música A filha do seu Faceta, muito conhecida... Didi e Zacarias (Renato Aragão e Mauro Gonçalves) cantam a música com muita graça e ironia (aqui:
http://letras.mus.br/os-trapalhoes/1302076/). P.R. foi além: substituiu algumas profissões por outras, criando sua própria paródia. Eis que no decorrer da música eu já cantava junto, afinal, sou uma autêntica
criatura dos anos 80. Porém, no final, o menino pediu para parar tudo:
-Você não canta o Ney Matogrosso, canta Du Moscovis!
Na força do momento eu nem questionei! Queria ganhar a confiança do menino, cantei o trecho substituindo por Du Moscovis e assim criamos um novo fim.
As semanas foram passando, me agarrei a linguagem musical do menino e aos seus interesses que agora já eram meus também. Vínculo formado. Foi assim que um dia, ao olhar a foto da minha filha P.R. perguntou se ela estava bem. Na verdade não estava... Com a mudança do tempo, minha filha estava febril em casa com sinusite.
Dias depois, P.R. entra na minha sala e dispara:
-Como está a nossa mimada? Ainda se encontra acamada no leito?
Essa linguagem rebuscada cheia de os-as-lhes me fascinava! Prontamente respondi que minha filha não estava acamada ou no leito, já se encontrava melhor, pois havia sido medicada.
-O Du Moscovis vai vir buscar você hoje?
Ahh, ficou claro quem era Du Moscovis. Meu digníssimo cônjuge, vulgo marido (Jr). Então, o homem lobisomem não era o Ney Matogrosso e sim, Jr, batizado espontaneamente de Eduardo Moscovis. Vanessa, a Astrônoma, Lalá, a "mimada" e Jr, o Du. Família!
Após esse episódio, as conversas sempre giravam sobre os centros de interesse do menino. A modelo que apareceu na novela das 9h, o filme e os personagens que se misturavam ao cotidiano. Um dia, me perguntou se eu conhecia o tal de Vinícius de Moraes, o poeta. Achei curioso, pensei: "Ele está me observando o tempo todo, sempre tenho uma coisa ou outra aberta no computador sobre MPB".
Interessante que um aluno meu de quem falarei aqui no Borboleta Aspie ainda é curioso quanto ao meu amor por MPB. Várias vezes me perguntou sobre a minha preferência por MPB. Mas esse é para outra postagem.
Comecei a mostrar algo de VM e Toquinho para ele. No início pensei até que estivesse sendo chata, mas vi que havia me equivocado. Ele gostava! Conhecia as aberturas das novelas de Manoel Carlos!
Certo dia, P.R. pediu para acessar o YouTube. Ele não procurou as novelas da Record. Escreveu Vinícius de Moraes e em seguida "Por amor". Com a busca um pouco confusa apareceram cenas, trechos da novela de Manoel Carlos. Depois vimos outras aberturas de novela (Mulheres Apaixonadas, Viver a vida).
Naquele dia, P.R. parecia nervoso, agitado. Perguntei se ele queria cantar a música. Recebi a seguinte resposta:
-Quando eu voltar aqui, sexta-feira, vamos cantar essa música.
Não lembro exatamente o motivo, mas ele não apareceu por alguns dias. A correria durante o atendimento na SR não me deixou falar nada quando P.R. entrou rapidamente , puxou o netbook, abriu o respectivo vídeo e começou a cantar Falando de amor, do Tom Jobim. Ele me olhava e repetia: "Combinamos cantar e assistir a abertura de Por amor". De mãos dadas, P.R. e eu cantamos juntos o trecho da abertura:
Se eu pudesse por um dia
Esse amor essa alegria
Eu te juro, te daria
Se pudesse esse amor todo dia
Chega perto
Vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro-canção
Se soubesses como eu gosto
Do teu cheiro teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor
Chora flauta chora pinho
Choro eu o teu cantor
Chora manso bem baixinho
Nesse choro falando de amor
Link: http://www.vagalume.com.br/tom-jobim/falando-de-amor.html#ixzz2V75Vj2B1
A música não precisa ser explicada, basta ser sentida. Após cantá-la duas, três vezes, gravamos improvisadamente no celular, com a permissão do mesmo. Tempos depois presentei a mãe de P.R. com a gravação em cd. Segundo a mãe, a avó do menino se emocionou com a gravação pois ainda não tinha ouvido P.R. cantar, assim como ela mesma...
"Lá no fundo do meu coração..."
:)