O que me inquieta também me encanta... Educação, mundo aspie, poesia e afins. Não necessariamente NESSA ordem.
domingo, 27 de fevereiro de 2022
sábado, 26 de fevereiro de 2022
Vejo-te Aqui
Conto as luzes da cidade e, mesmo assim
Vejo-te aqui
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
terça-feira, 15 de fevereiro de 2022
De volta para casa
12/02 (editando)
Sobre dois novos alunos, sobre dois amores novos.
Ao chegar à escola, a mesma escola, tudo igual, tudo de novo. A diferença está nos rostos cobertos pelas máscaras, a falta do abraço. Ainda assim, alguns abraços acontecem meio sem querer, seguidos de pedidos de desculpas. Existem pessoas que só conseguem falar dessa maneira, no tocar, na pele. Resta lembrar dos protocolos e continuar seguindo.
Durante a semana, os sentimentos vão surgindo. Amanhecem e anoitecem ansiedade, esperança, amor, medo, carinho. É assim que construímos os caminhos.
Na quinta, o primeiro encontro. O aluno chegou e todos da equipe fizeram a acolhida. O sorriso dele, rodeado pelas professoras que incentivavam carinhosamente, a mãe observando com emoção do outro lado. Por um momento pensei que merecia uma foto. Mas, não. A memória guardaria a cena, somente ela.
R. beijava o rosto da mãe, segurando a minha mão. Tentava beijar meus dedos, e ria, porque eu não deixava. Mostrou a camisa da escola, a calça, o sapato. Queria encostar os pés. Pediu para passar o álcool em gel nas mãos e mostrava para as professoras, satisfeito.
Coisas tão pequenas. Mas, é assim. Um passo de cada vez.
Na sexta, último dia da semana, conversas e reuniões, papéis e entrevistas, cópias de documentos. Estava pesquisando sobre algumas síndromes quando lembrei que precisava falar com as mediadoras. Na sala de recursos, conversamos sobre alunos, problemas, soluções, etapas, até chegarmos na vida diária e as pausas, tão valiosas para a manutenção da sanidade mental (parte dela).
Já havia esbarrado nele várias vezes pelo corredor e na entrada, mas apenas trocamos alguns sorrisos. Não havia parado para conversar, dar atenção.
F. entrou na sala como quem diz "vim pra ficar". Não esperou ser convidado, não deu bom dia. Chegou e tomou posse daquele pedaço da escola que já é dele. Disse que havia sido liberado cedo e tinha certeza que estaríamos ali. Interrompendo nossa pequena reunião várias vezes enquanto tentávamos terminar o que começamos, comecei a prestar atenção no que ele fazia. Lia um gibi antigo e queria falar sobre cartoons. Foi quando me levantei da cadeira e me aproximei para pedir que ele ajustasse a máscara e higienizasse as mãos que ele viu minha sapatilha do Snoopy, cheia de Woodstocks amarelinhos.
Fascinado, começou a falar sobre os Peanuts, depois sobre as histórias em quadrinhos, o Snoopy que resmunga produzindo textos na máquina de escrever. Perguntei se gostava dos desenhos; disse que gostava das tirinhas. E aí, deu-se o início da conversa.
F. foi meu aluno por alguns meses no ano de 2015. Era um pequeno de 6 anos de idade. Falava inglês (aprendeu sozinho) e se incomodava com o meu inglês, que só funcionava às vezes e razoavelmente. Gostava de dinossauros, de Star Wars, de fantasmas. Sua concentração era mínima. O hiperfoco já era presente. Falava incansavelmente somente das coisas que gostava.
Conversar com F. me trouxe uma alegria que não sinto há muito tempo no ambiente escolar. Quando meus alunos antigos concluíram os estudos, percebi que estava iniciando uma nova etapa no trabalho, na forma de realizá-lo. O foco das famílias, o interesse, o modo que a escola tem lidado com certas questões. Mas sobre isso, escrevo depois.
A alegria está nos detalhes, assim como o amor.
Conforme os centros de interesse foram surgindo, a conversa foi fluindo para algo maior. Naquele momento não cabia uma avaliação formal. Era afeto. Lembrei das dificuldades do aluno, das minhas dificuldades, o processo, os avanços, os retrocessos. Foi passando um filme. F. não parava de falar e quanto mais eu demonstrava interesse, os assuntos surgindo, e eu, fascinada, fui percebendo o quanto ele mudou, o quanto eu mudei, o quanto aprendi. E a troca estava acontecendo porque eu conhecia praticamente todos os centros de interesse dele e podia trazer informações novas, assim como entender que ele demonstra coesão entre pensamento e fala. Nada ali é fantasioso. O detalhe maior está em ouvir, prestar atenção. É a comunicação.
Em alguns momentos, pedíamos para ele respirar corretamente, pausar para organizar o pensamento, baixar a voz. Mas respeitando sempre a sua alegria, pois era notório que ele estava feliz naquele lugar.
Fui contando para ele curiosidades das gravações de Star Wars, o fim dos Skywalker, as reclamações dos fãs em relação às prequelas, A transição da Lucasfilm para a era Disney. Spoiler atrasado: ele não sabia que Kylo Ren morreu passando suas forças para Rey. Que desespero! Ele repetia que Kylo se sacrificou pela moça. Daí o assunto viajou para fliperama, consoles e claro, o Atari. Os jogos. Ele descreveu cada um dos jogos que eu mais gostava, dentre eles, o H.E.R.O. E quando falou sobre o fracasso da fita do E. T. , o extraterrestre, o meu choque: F. começou a desenhar no ar um tipo de circuito interno, como se olhasse um manual. Descreveu o circuito, o o cartucho, a lógica do jogo. Aquilo que, segundo ele, estava errado.
E assim, nesse encantamento, nessa alegria, pude observar que ele tem pensamento visual.
Existem pessoas que tem habilidades em visualizar imagens. Literalmente, ele visualiza/projeta aquilo que em nós está limitado ao pensamento. Um das palavras que eu mais gosto de escrever: peculiar.
Aos poucos, observamos e identificamos outras características: pouco, quase nenhum contato visual, incômodo com ruídos sensibilidade ao toque. Disse não gostar muito de ser abraçado, tocado.
F. fez algumas pausas engraçadas, rindo e fazendo sorrir; ouviu uma música que a mediadora colocou no celular (Calma, da Marisa) e cantamos juntos. Depois de algum tempo pediu que pausasse a música; compartilhou seu interesse por músicas dos anos 80 e clássica. Ouvi, prestando atenção, com o coração feliz. A alegria que eu ainda estou sentindo é única: que bom que ele retornou para a nossa escola. Porque podemos ajudar, podemos acolher, podemos fazer algo por ele com significado. Com técnica, com apoio de toda a literatura e ciência, mas acima de todas as outras coisas, com amor.
Ao sair, não se despediu. E quando brinquei com ele, reclamando que estava saindo sem nem dizer tchau... voltou sorrindo e disse que apesar de não gostar, queria o abraço. E abraçou cada uma das professoras. Eu, a última a ser abraçada. Abraço meio torto, com protocolos (se é que isso existe).
Ao encontrá-lo novamente, ganhei outros abraços (quase atropelados). "Professora, sei que preciso seguir os protocolos, mas eu tenho necessidade de abraçar você. Me abraça?"
E fiquei ali pensando... como é bom ter algo/alguém para amar...
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022
Cores que aceleram, mesmo quando freiam.