terça-feira, 28 de dezembro de 2021

 Felicidade não é parte, é todo.


 "Ando devagar porque já tive pressa". 

Pressa em viver. 

Já andei demais por aí, e também, já não posso caminhar tão devagar.

Na busca pelo amanhã, é comum atropelar o hoje e  não viver um dia de cada vez. Ou emaranhar-se no passado e  estagnar nele como desculpa para não avançar as doze casas.

O tempo que passa e se arrasta. 

Será?

Meu tempo é quando!

Encontrar a felicidade nas pequenas coisas. Em cada detalhe. Sobre ter e ser; sobre amar e cuidar; sobre desejar o bem e ser feliz com a alegria das pessoas que amamos. 

Amar, mesmo que não seja nesse plano. Amar, mesmo que seja à distância. Amar, sobretudo a si mesmo. 

A felicidade está na palavra simples, no  gesto casual, naquilo que somos e sentimos em relação ao todo. E o todo, é seletivo, particular. 

Qual a parte que falta?

Ser feliz com a alegria das pessoas que amamos é uma forma de felicidade.

A casa do "nós".


Crê apenas no amor e em mais nada (Vinícius de Moraes).






segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Verdade, uma ilusão





Roubar-te um beijo num salão
Girar sem perder o chão
Não vou deixar você cair...


Eu posso te fazer feliz
Feliz me sentir também
Eu posso te fazer tão bem
Eu sei isso eu faço bem
Roubar-te um beijo no salão
Girar sem perder o chão
Não vou deixar você cair
Cintura leve a minha mão
Verdade - uma ilusão
Vinda do coração
Verdade - seu nome é mentira

Eu posso te fazer ouvir
Milhões de sinos ao redor
Eu posso te fazer canções
O amor soa em minha voz
Eu posso te fazer sorrir
Meus olhos brilham para ti
E os pés já sabem onde ir
Ninguém precisa decidir
Verdade - uma ilusão
Vinda do coração
Verdade - seu nome é mentira

Verdade - uma ilusão
Vinda do coração
Verdade - seu nome é mentira


(Brown, Antunes, Marisa)



quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Era



Era uma vez  uma garotinha segurando uma "galodinha", a boneca de cabelo amarelinho
E um ursinho de pelúcia, o Peposinho, que também se chamava Peter, de chupeta amarela-vermelha e babador.
Apostava corrida com o imaginário num velocípede azul
Se escondia no buraco da piscina e falava sozinha
Tinha o cabelo cacheado, o sorriso 
a gargalhada solta
O amor fluindo.
Era dona de fazendas com muitos animais, boizinhos e cavalinhos 
Um cavalinho branco se chamava Pé de Pano, como o do Pica-Pau.
A areia fina, o caminhãozinho laranja e azul, puxado por uma cordinha.
O agarradinho, agarradinho, sempre assim.
No quartel, os seus bombeiros eram  casados com moças coloridas e seus vestidos eram feitos de retalhos-
ou de papel
Uma dessas moças se fantasiava de odalisca no carnaval, com gel new wave azul  nos cabelos
Era uma roupa cor do sol feita à mão
com folha de caderno.
Os cadernos
Eram três
Um pra mim, outro pra você.
A mamãe fazendo bolinhos e festinhas para batizar as bonecas e brincando como se fosse criança também
Viajando com o lápis de cor e a  canetinha Baycolor que apagava como mágica. 
O cine drive-in desenhado, os três no carro, a tela do cinema que parecia tão grande... o avião voando baixinho, indo e vindo do Galeão
Na Ilha do Governador.
Papai chegando no carro com o beirute
Coca-Cola no copo de papel
Ela dormindo no banco de trás do carro.
E o Belvedere! 
Ele fechou e ninguém ficou sabendo... 
Aquele dia que não deixou rodar e ela ficou tão triste, mas depois entendeu que aquele moço que estava no meio das outras crianças no carrossel poderia ser "mau".
Ela arrumava casinhas e sonhava em morar em todas elas; fazia comidinhas com pedrinhas, folhas e afins. Brincava com ela mesma e com o mundo. Um dia, pediu um irmãozinho: ganhou dois de uma só vez.
Escorregou, correu, balançou 
Caiu da bicicleta, prendeu o dedo, o calcanhar
Muitas vezes...
Muitas vezes
Ela contava histórias, estrelas
E borboletas
Esperava as Onze-horas amanhecerem (na hora errada)
Escrevia nas paredes do quintal com o vidrinho de água observando as palavras sumirem com o calor do sol.
Aprendeu a ler nos gibis e nas imagens do Saber em Cores
No O Mundo Colorido da Criança
E com as Mãos Mágicas
Nas embalagens, nas placas, nas músicas.
Foi  heroína; foi todos os personagens
Queria ser bailarina, mas alguém disse que o pé da bailarina não era muito bonito (que maldade!)
E ela nem quis mais
Mas ela continuou girando
E sendo todas as meninas que ela era
Com todas as suas melodias.
Depois de bailarina, ela quis ser pianista, astronauta
Professora
De bonecas
E de gente de todos os jeitos
Aprendeu a escrever
E nunca mais parou.
Ela não cansava nunca
Não cansava nunca
Não cansava
Não...



Ela era, ela é...








domingo, 12 de dezembro de 2021



O quarto domingo seguido.
O que faz parte do todo que é construído.
Voltando de lá. O lá de hoje,  mais ou menos perto.

São as etapas, os ciclos, as coincidências felizes. 
Estar em casa e só perceber quando as memórias afloram.
O sorriso no bendito fundo azul. Esse céu que me faz tão feliz. Só ele e o sol.

Pequenina, de mãos dadas, escrevendo os sonhos nos rabiscos. Os finais de semana no meio dos módulos, avaliações, formações, encontros. Aprendendo Vinícius comigo, poesiazinha, o teu desenho puro.
Agora, taí, estrelinha... escreva e continue sonhando.


A vida é boa quando se brinca demais, quando se canta e não se olha pra trás.


O mundo é realmente uma bolinha de papel.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O último dia


Meu amor,

O que você faria

Se só te restasse um dia?

Se o mundo fosse acabar

Me diz o que você faria 

(Moska/ Brandão)


Desde que fomos lançados à sorte do retorno gradativo, seletivo, controlado, escalonado e seguro (?), me pergunto: O que aconteceu com as pessoas? A necessidade de viver em 24 horas o que não foi vivido em 2020/2021?  Compensar o ano perdido? Medo de retornarmos à uma quarentena mais severa? Fato que por aqui nunca existiu, devido à  fatores sociais, econômicos, culturais...

Ou nada disso. Um simples  dane-se para tudo.


O que você faria? 


Todos estão cansados. Aqueles que quarentenaram por pressão ou por necessidade; àqueles que não tiveram a oportunidade de quarentenar. E aqueles que optaram por seguir em frente, sem restrições.

Muitos se encontram no estado de loucos por uma aglomeração.  O que escolhemos pode decidir a sorte, a vida do outro. Na loteria cormobidades, genética, imunidade, vacina é a maior ferramenta, porém, aliada aos cuidados que precisam ser mantidos: distanciamento, uso da máscara, a higiene das mãos e todo e qualquer procedimento necessário para que possamos nos proteger; proteger  o outro.

Observo, questiono. Me entristeço. Me revolto. O que chamam de mordaça, chamo de proteção. O que chamam de limitação de ir e vir, chamo de zelo. E assim, as diferenças se acentuam e precisamos buscar um meio de conviver com elas. Mas, lembrando que não estamos falando sobre egos, opiniões ou achismos. Falamos sobre CIÊNCIA, ESTATÍSTICAS; A RESPONSABILIDADE SOBRE NOSSAS VIDAS E DE OUTRAS PESSOAS.

Se você apresenta sintomas, se está doente, tenha  consciência:  não contamine seus colegas, seus familiares. Não espere um ente querido  ser intubado para ter a dimensão que tudo isso  não é brincadeira de criança. 

Sobre as crianças, vejo no cotidiano o quanto elas tem sofrido.  Porém, não há testagem, controle algum. Famílias inteiras circulando com "gripe" sem saber ao certo o diagnóstico. E assim, convivemos, no ir e vir seletivo para alguns, na medida do possível.

Todas as medidas adotadas são necessárias; todos os esforços.  Seguir com todos os cuidados,  acreditar na vacinação,  respeitar o  distanciamento.

Os EPIs adequados são adquiridos e mantidos com meios próprios, assim como a limpeza constante do material de trabalho, o cuidado com o ambiente,  a exigência da máscara e o uso constante da mesma; a solicitação por parte do colega que não utiliza e não respeita o distanciamento; a consciência de que me protejo e aos demais.


Uma quantidade infinita de adultos e crianças sem máscara.

O colega que ironiza o outro que se mantêm distante ou que não retira a máscara para a foto social.

A outra que se torna alvo de críticas por utilizar face shield.

A máscara alheia que anda pendurada na orelha, no braço, na bolsa; que não é higienizada. 

Aqueles que acham exagero; bobeira; crendice; covardia; falta de fé.


A cada dia, vejo um mundo mais inadequado. Me questiono se as pessoas realmente (con)vivem. Se nos cuidarmos ou não, o mundo continuará existindo (por um instante). E nós? Sobreviveremos ao  egoísmo? À ignorância?


Me diz, o que você faria?


O mundo não acabou. Ele não é, ele está  sendo (Freire). Mas a humanidade caminha para o fim.





terça-feira, 7 de dezembro de 2021

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

O Melhor Da Vida



O Melhor da Vida

Marcelo Jeneci

 

O que vale nessa vida

Tem um pouco do seu jeito

Jeito do seu corpo, jeito do seu pensamento

Jeito de gostar dos outros cada vez gostando mais

Do seu jeito de falar tranquilo

Como quem promete e faz

 

O que vale nessa vida é ver como você aproveita

Desde a hora que levanta até a hora que deita

Quando escolhe a coisa certa é tudo sem receita

Quando perto de você a própria confusão se ajeita bem

 

E me vem que a vida vale mil

Mil vezes sou nós dois

Mil meses de amor

Antes de ter prorrogação

Se a vida é por um fio

Valeu pra quem já viu

Seu jeito de tocar no coração

 

E nas noites que o tempo para e você me abraça

Sinto que o melhor da vida sempre vem de graça

Sinto que o melhor momento é aquele que não quer passar

E que dura toda a eternidade

E isso é só pra começar

 

O que vale nessa vida, vale como um bom presente

Cai do céu, um bem que a gente sente

Vem como você vem antes de eu me preparar

E me diz: Vai ficar aqui, pois aqui é seu lugar

 

E me vem que a vida vale mil

Mil vezes sou nós dois

Mil meses de amor

Antes de ter prorrogação

Se a vida é por um fio

Valeu pra quem já viu

Seu jeito de tocar no coração

 




segunda-feira, 29 de novembro de 2021

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Felicidade


Melhor viver, meu bem

Pois há um lugar

Em que o sol brilha pra você



terça-feira, 9 de novembro de 2021

domingo, 7 de novembro de 2021

"Só" (advérbio)


Nos encontros e desencontros, me busco e me perco. Assim me faço.

Desfeita a amarra, quase me alcanço.

Quando me alcanço, não sei quem sou.


São todos os "eus "; me reconheço neles!

As sombras, afogadas nas circunstâncias.


Seguindo no silêncio, os mesmos passos,

no canto dos encantos, a pequena luz.


O que foi sublimado  são apenas riscos dos quereres.

Ela Quer.

Ou, quereria.


Arcanjo.

Borboleta.


Escrevo, enquanto há tempo.

E tempo, é só o que há...



sábado, 6 de novembro de 2021

Quase pausa (2)


Antes da pausa, o Pedro.

Antes da pausa, eu.



Autor: Pedro Salomão


Eu olhei para o campo da minha existência

e ele estava vazio,

porque todo solo precisa descansar entre as safras.


Esse campo já esteve cheio,

de plantações diversas,

eu já plantei e já colhi,

e agora é hora de esperar.


Hoje está vazio.

Mas não é vazio.


Minha lua cheia vai voltar a brilhar.

Meu campo vai voltar a florir.

Mas por enquanto

eu busco aceitar que o vazio faz parte do ciclo.


Não existe verão o ano todo,

nem inverno.


É o ciclo que faz a vida,

que faz a lua

e que me faz.


Passa. Porque precisa passar.

Descansa, que logo voltará a ser,

mesmo que nunca tenha deixado de ser.




sexta-feira, 5 de novembro de 2021

 


Sim,

faz tempo que aprendi que a vida é um sopro. 




Mãe


Mais um novembro. 

Novembro de Mãe.

Renovo.

Mais do "juntos."

Nosso amor para ela.

Que seja o melhor.





terça-feira, 19 de outubro de 2021

domingo, 17 de outubro de 2021

Pai (2)

 

Música do pai e da mãe. Da mãe com o pai.  Tempo que eu ficava no meio dos dois: "O Levi é meu!"

Ironia... "um ano sem você..."

Para substituir pelo menos por hoje as minhas  palavras, pois ando no estado de  não consigo. 


Torneró

(I Santo California)


Rivedo ancora il treno

Allontanarsi e tu
Che Asciughi quella lacrima
Tornerò
Com'è possibile
Un anno senza te

Adesso scrivi aspettami
Il tempo passerà
Un anno non è un secolo
Tornerò

Com'è difficile
Restare senza te

Sei
Sei la vita mia
Quanta nostalgia
Senza te
Tornerò, tornerò


Da quando sei partito è, cominciato per me la solitudine
Intorno a me c'è il ricordo dei giorni belli del nostro amore
La rosa che mi hai lasciato si è ormai seccata
Ed io la tengo in un libro che non finisco mai di leggere

Ricominciare insieme
Ti voglio tanto bene
Il tempo vola aspettami
Tornerò
Pensami sempre sai
E il tempo passerà

Sei
Sei la vita mia (amore, amore mio)
Quanta nostalgia (un anno non è un secolo)
Senza te
Tornerò
Tornerò
Pensami sempre sai
Tornerò
Tornerò

(...)

                                                                                       

(
(

domingo, 10 de outubro de 2021

"Agridoce"


Tão forte, tão perto, tão longe.

Longe do abraço no amanhecer, abraço com o palavrar. 

Elemento ar à prova; o sol retirou-se em lágrimas.

Rascunho de inverno.


Agora: tempo do depois.


Reencontro as palavras a tempo do abraço e do estado de felicidade: a alegria de viver; dormir e acordar sonho e canção.

(...) O (des) construído: as melhores melodias, os  sorrisos mais bonitos, os caminhos mais coloridos, o sucesso que buscas, a certeza que és único: outro igual não há.

Poesia nos gestos, a intensidade subliminar.  


Acendo a vela, 

vou pra janela e espero você.


Escrever, verbo amar. 

Tu.




Libra (Hotelo)


"Eu vou com todo mundo
Que é com todo mundo que eu quero estar
É esse abraço que eu quero apertar
E nesse abraço cabe um milhão


Só se for a dois..." 



sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Pai



"Boa noite, rainha" (a música do Ritchie que virou beijo antes de dormir).




A saudade que sinto do seu abraço. Do meu cabelo agarrando na sua barba.
Do costume de fazermos as refeições juntos.

Outubro apertado. Uma saudade que nunca imaginei sentir.

Vejo você todos os dias nas pequenas coisas. 
Vejo você em todos nós. 
Em mim.

Me lembrei hoje de todas as bonecas e ursinhos que você me deu, junto com minha mãe. A família Peposo. Meu Peposinho.
Do "sorvete quente", do Chocolate Surpresa, do álbum do Jaspion e Changeman. Da blusinha do Rock in Rio. Da Babinha, Bate Palminha,  Chuquinhas, Poeminha (ela está aqui em casa, finalmente).
Fiquei lembrando da minha mãe me ensinando a ler com os gibis que você prometeu comprar para mim todos os domingos na banca "lá do outro lado". Do nosso domingo na feira pela manhã.
Não é o consumir, querer, comprar, ter. Mas o significado de cada objeto que conta a história da vida toda.

Que saudade dos nossos passeios! Da última viagem!
E da viagem pós pandemia que não aconteceu.

Pai, neste dia sem a sua presença, estou em oração para que possamos suportar em amor. E que esse amor nos permita sorrir com as lembranças.

Histórias não faltam.
Saudade também.
Amor infinito.

Meu amor nunca dorme. Nem descansa. 
A gente daqui continua fazendo a história...
Não deixaremos de ser "nós".
                                                                                         

 Finda-se este dia que meu Pai me deu...

"Boa noite, dorme com Deus, bença pai."




terça-feira, 21 de setembro de 2021

A Borboleta Amarela 

Rubem Braga


Era uma borboleta. Passou roçando em meus cabelos, e no primeiro instante pensei que fosse uma bruxa ou qualquer outro desses insetos que fazem vida urbana; mas, como olhasse, vi que era uma borboleta amarela.
Era na esquina da Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; ela borboleteava junto ao mármore negro do Grande Ponto; depois desceu, passando em face das vitrinas de conservas e uísques; eu vinha na mesma direção; logo estávamos defronte da ABI. Entrou um instante no hall, entre duas colunas; seria uma jornalista? – pensei com certo tédio.

Mas logo saiu. E subiu mais alto, acima das colunas, até o travertino encardido. Na Rua México eu tive de esperar que o sinal abrisse; ela tocou, fagueira, para o outro lado, indiferente aos carros que passavam roncando sob suas leves asas. Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria? Fora trazida pelo vento das ilhas – ou descera saçaricante e leve da floresta da Tijuca ou de algum morro – talvez o de São Bento? Onde estaria uma hora antes, qual sua idade? Nada sei de borboletas. Nascera, acaso, no jardim do Ministério da Educação? Não; o Burle Marx faz bons jardins, mas creio que ainda não os faz com borboletas – o que, aliás, é uma boa idéia. Quando eu o mandar fazer os jardins do meu palácio, direi: Burle, aqui sobre esses manacás, quero uma borboleta amare… Mas o sinal abriu e atravessei a rua correndo, pois já ia perdendo de vista a minha borboleta.

A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha – como se fosse meu cão ou minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessando a rua na minha frente, e eu devesse segui-la. Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas – as casas, os veículos – ou se vendo; só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel. Naquele ângulo há um jardinzinho, atrás da Biblioteca Nacional. Ela passou entre os ramos de acácia e de uma árvore sem folhas, talvez um flamboyant; [...] Notei isso pela primeira vez, aliás, naquele instante, eu sempre passo por ali; é que minha borboleta amarela me tornava sensível às cores.

Ela borboleteou um instante sobre um casal de namorados; [...] e seguiu em direção à avenida.
Amanhã eu conto mais.

Eu ontem parei minha crônica no meio da história da borboleta que vinha pela Rua Araújo Porto Alegre; parei no instante em que ela começava a navegar pelo oitão da Biblioteca Nacional.

Oitão, uma bonita palavra. Usa-se muito no Recife; lá todo mundo diz: no oitão da Igreja de São José, no oitão do Teatro Santa Isabel… Aqui a gente diz: do lado. Dá no mesmo, porém oitão é mais bonito. Oitão, torreão.

Falei em torreão porque, no ângulo da Biblioteca, há uma coisa que deve ser o que se chama um torreão. A borboleta subiu um pouco por fora do torreão; por um instante acreditei que ela fosse voltar, mas continuou ao longo da parede. Em certo momento desceu até perto da minha cabeça, como se me quisesse dizer: “estou aqui”.

Logo subiu novamente, foi subindo, até ficar em face de um leão, aliás há várias, cada uma com uma espécie de argola na boca, na Biblioteca. A pequenina borboleta amarela passou junto ao focinho da fera, aparentemente sem o menor susto. Minha intrépida, pequenina, vibrante borboleta amarela! pensei eu. Que fazes aqui sozinha, longe de tuas irmãs que talvez estejam agora mesmo adejando um bando álacre na beira de um regato, entre moitas amigas – e aonde vais sobre o cimento e o asfalto, nessa hora em já começa a escurecer, ó tola, ó tonta, ó querida pequena borboleta amarela! Vieste talvez de Goiás, escondida dentro de algum avião; saíste no Calabouço, olhaste pela primeira vez o mar, depois…

Mas um amigo me bateu nas costas, me perguntou “como vai, bichão, o que é que você está vendo aí?” Levei um grande susto, e tive vergonha de dizer que estava olhando uma borboleta; ele poderia chegar em casa e dizer: “encontrei hoje o Rubem, na cidade, parece que estava caçando borboleta”.

Me lembrei de uma história de Lúcio Cardoso, que trabalhava na Agência Nacional: Um dia acordou cedo para ir trabalhar; não estava se sentindo muito bem. Chegou a se vestir, descer, andar um pouco junto da Lagoa, esperando condução, depois viu que não estava mesmo bem, resolveu voltar para casa, telefonou para um colega, explicou que estava gripado, até chegara a se vestir para ir trabalhar, mas estava um dia feio, com um vento ruim, ficou com medo de piorar – e demorou um pouco no bate-papo, falou desse vento, você sabe (era o Noroeste) que arrasta muita folha seca, com certeza mais tarde vai chover, etc., etc.

Quando o chefe do Lúcio perguntou por ele, o outro disse: “Ah, o Lúcio hoje não vem não. Ele telefonou, disse que até saiu de casa, mas no caminho encontrou uma folha seca, de maneira que não pôde vir e voltou para casa”.

Foi a história que lembrei naquele instante. Tive – por que não confessar? – tive certa vergonha de minha borboleta amarela. Mas enquanto trocava algumas palavras com o amigo, procurando despachá-lo, eu ainda vigiava a minha borboleta. O amigo foi-se. Por um instante julguei, aflito, que tivesse perdido a borboleta de vista. De maneira que vocês tenham paciência; na outra crônica, vai ter mais história de borboleta.

Mas , como eu ia dizendo, a borboleta chegou à esquina da Araújo Porto Alegre com a Avenida Rio Branco; dobrou à esquerda, como quem vai entrar na Biblioteca Nacional pela escada do lado, e chegou até perto da estátua de uma senhora nua que ali existe; voltou; subiu, subiu até mais além da copa das árvores que há na esquina – e se perdeu.

Está claro que esta é a minha maneira de dizer as coisas; na verdade, ela não se perdeu; eu é que a perdi de vista. Era muito pequena, e assim, no alto, contra a luz do céu esbranquiçado da tardinha, não era fácil vê-la. Cuidei um instante que atravessava a avenida em direção à estátua de Chopin; mas o que eu vi era apenas um pedaço de papel jogado de não sei onde. Essa falsa pista foi que me fez perder a borboleta.

Quando atravessei a avenida ainda a procurava no ar, quase sem esperança. Junto à estátua de Floriano, dezenas de rolinhas comiam farelos que alguém todos os dias joga ali. Em outras horas, além das rolinhas juntam-se também ali pombos, desses grandes, de reflexos verdes e roxos no papo, e alguns pardais; mas naquele momento havia apenas rolinhas. Deus sabe que horários têm esses bichos do céu.

Sentei-me num banco, fiquei a ver rolinhas – ocupação ou vagabundagem sempre doce, a que me dedico todo dia uns quinze minutos. Dirás, leitor, que esse quarto de hora poderia ser mais bem aproveitado. Mas eu já não quero aproveitar nada; ou melhor, aproveito, no meio desta cidade pecaminosa e aflita, a visão das rolinhas, que me faz um vago bem no coração.

Eu poderia contar que uma delas pousou na cruz de Anchieta; seria bonito; não seria verdade. Que algum dia deve ter pousado, isso deve; elas pousam em toda parte; mas eu não vi. O que digo, e vi, foi que uma pousou na ponta do trabuco de Caramuru. Falta de respeito, pensei. Não sabes, rolinha vagabunda, cor de tabaco lavado, que esse é Pai do Fogo, Filho do Trovão?

Mas essa conversa de rolinha, vocês compreendem, é para disfarçar meu desaponto pelo sumiço da borboleta amarela. Afinal arrastei o desprevenido leitor ao longo de três crônicas, de nariz no ar, atrás de uma borboleta amarela. Cheguei a receber telefonemas: ” eu só quero saber o que vai acontecer com essa borboleta”. Havia, no circulo das pessoas íntimas, uma certa expectativa, como se uma borboleta amarela pudesse promover grandes proezas no centro urbano. Pois eu decepciono a todos, eu morro, mas não falto à verdade: minha borboleta amarela sumiu. Ergui-me do banco, olhei o relógio, saí depressa, fui trabalhar, providenciar, telefonar… Adeus, pequenina borboleta amarela.


Rio, setembro de 1952.





quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Caminhos (1)

Caminho. 

Os pés livres, descalços, quase encobertos pela areia fina. O mar passeia sobre eles. 
As conchas pequeninas vem e vão. 
O vento fresco, os cabelos revoltos, o sorriso mais feliz do mundo.
As luzes ao longe. O som suave das ondas. 
O céu, a lua, as estrelas. Noite  que abraça. 
Ilumina os olhos. 
O beijo sobre eles.


O vestido arrastando, assim como faz o tempo.

Corro de... Corro para... 
Tom Jobim observa. Ele e o violão.
Dançam juntos sob a lua. 
Giralua, quase flor...

O mar guarda o silêncio que conta os segredos; diz mais que palavrar.

És a melhor canção e poesia.
Eu te beijo. 
Eu te danço. 
"Eu te sonho".


"Ah, como eu gosto de você! Eu gosto tanto de você... 

E fica mais lindo por causa do amor."


Ipanema, RJ.


 



quarta-feira, 15 de setembro de 2021



Eu gosto tanto de você...



Não tenho conseguido escrever. Reverti algumas (muitas) postagens, pois são especiais. Mas não ficarão guardadas para sempre. Qualquer dia, qualquer hora... reposto.

Ainda estou no modo "rascunho". Então, vou encontrando (e reencontrando) as músicas que inspiram para que as cores não se apaguem. 
Mais edito do que escrevo. Penso mais do que falo.

2021 está sendo tão complexo quanto 2020. Rascunhos à parte, estou relendo capítulos da história. Espero que consiga reescrevê-los de uma forma mais bonita. 
Me sinto caminhando com pernas amarradas num mundo que exige respostas rápidas, prontas, que espera um comportamento padrão. Não me encaixo  mais neste formato de agradar a todos e desagradar a mim mesma. Sensatez. Viver, sempre o mais importante. Bom senso.

Estou cansada (e com sono, acertando o relógio), mas feliz, porque o sorriso nunca dorme, apesar de tudo. 


Estamos chegando em outubro. Minha vida gira ao redor de junho/julho, outubro/novembro. As datas especiais, os aniversários, até a poesia: Vinícius faz parte deste mês tão marcante.

Preciso manter o equilíbrio e sobreviver às lembranças. Meu pai, que tanta falta me faz... chegou e partiu em outubro. Refaço os caminhos de toda a vida. Todos os dias.

Outubro tem mais saudade e mais vontade de ficar perto. Tem também o "agridoce". 
Tem o cheiro que é azul. 
E eu abraço de longe. A saudade, a preocupação, o carinho. Perguntas (às vezes) sem respostas.

Tempo. 

Preciso escrever.
Escrever me traz de volta. 
Onde estou agora?








terça-feira, 14 de setembro de 2021

Olha




Olha, você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei pra mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importa, eu gosto mesmo assim
Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui
Olha, você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
Eu, que sempre fui tão inconstante
Te juro meu amor
Agora é pra valer
Olha vem comigo aonde eu for
Seja meu amante e meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor...


Compositores: Erasmo Esteves / Roberto Carlos Braga

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

É O Que Me Interessa

(Lenine/Carlos Eduardo)


Daqui desse momento, do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro, a sobra do passado
Assombram a paisagem

Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa?
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa

Às vezes é um instante, a tarde faz silêncio
E o vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou

Me traz o teu sossego, atrase o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra, sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento, o caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo, a pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo, a fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo, o agora e o infinito
Só o que me interessa


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

sábado, 4 de setembro de 2021

Vontade de escrever fora do rascunho.  Escrevo, leio. Reescrevo, reverto e guardo. Penso em

Às vezes, a poesia sufoca. E a saudade, também. Se arrasta, voa; sorri, chora.  Estou sem verso, sem prosa.

Uma pausa. Despausa. Outra pausa. Conto os dias. Contos beijos. 


Eu quero que o tempo descanse um segundo (Rubel).



sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Contato Imediato




"Se o coração disparar
Quando eu levantar os pés do chão
A imensidão vai me abraçar
E acalmar a minha pulsação..."

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

 Metade

 (Oswaldo Montenegro-1999)


Que a força do medo que tenho

Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito

Não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é o que eu grito

Mas a outra metade é silêncio.


Que a música que ouço ao longe

Seja linda ainda que tristeza

Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada

Mesmo que distante

Porque metade de mim é partida

Mas a outra metade é saudade.


Que as palavras que falo

Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor

Apenas respeitadas

Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento

Porque metade de mim é o que ouço

Mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora

Se transforme na calma e na paz que eu mereço

E que essa tensão que me corrói por dentro

Seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que penso

E a outra metade um vulcão.


Que o medo da solidão se afaste

E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância

Porque metade de mim é a lembrança do que fui

E a outra metade não sei.


Que não seja preciso mais que uma simples alegria

Pra me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo

Mas a outra metade é cansaço.


Que a arte nos aponte uma resposta

Mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar

Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer

Porque metade de mim é plateia

E a outra metade é a canção.


E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor

E a outra metade também.



segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Extra de segunda


Afeto.


Afeto não tem a ver com ser permissiva. Não significa ceder às pressões que o sistema impõe agregando a responsabilidade por tudo, por todos, até lhe adoecer.

Não faz relação com carregar o mundo nas costas. 

Não está nas palavras vazias.


Afeto não é sinônimo de passividade. 

Afeto não tem a ver com dizer sim, quando se deseja ou necessita dizer não. Afeto não é ser invasivo ou permitir a "invasão".

Afeto no ambiente escolar é a acolhida;  é exercitar o malabarismo com criatividade enquanto surgem os entraves do contexto, dentro dos limites individuais e por livre escolha. Sem a obrigação ou regras impostas por quem acredita que sabe demais.

Afeto é respeitar as diferenças e não somente fingir. É propor o "nós" e vivê-lo. É se negar  a exigir do outro o compromisso que é seu. A hipocrisia da cooperação que na prática é terceirizada.

Afeto está onde você estiver. 

Afeto é se importar com o outro da forma que gostaria que se importasse com você. É o abraço verdadeiro, mesmo que distante. É estar perto, mesmo quando está longe. 

Afeto é quando alguém de tão, tão distante se dispõe a escutar você falar; ouve você chorar só para você  desabafar. E faz você se sentir melhor com os gestos e palavras; com o cuidado, com o carinho.

Afeto é quando alguém segura as próprias dores para não te machucar (pois sabe que você não está inteiro). Também é  afeto quando resolve compartilhar. E confiando, procuram um caminho.

Afeto é  o carinho, a gratidão, esperar, cuidar, amar. Crer. Um junto do outro. O outro junto do um. De alguma forma, seja  qual for. É ser genuíno, falar a verdade, agir com franqueza.

Afeto é o leite quente com chocolate pela manhã, o bilhetinho, os mimos artesanais, o abraço fora de hora. O abraço na hora certa. 

Afeto é o amor próprio quando você diz "basta" ao que te machuca; não permitir que te anule em nome do afeto (quanta ironia). 

É a música que faz fundo à cena, as cores, o Sol. Todas as casas zodiacais saltando de alegria (as doze casas em festa). Hotelo e viniciano. 

Afeto é a borboleta amarela, a borboleta branca, a borboleta vermelha alaranjada, a borboleta marrom, a borboleta multicor; a borboleta transparente de Foz.


Afeto é a família e a saudade de quem não está perto. 

Afeto é Deus.

Afeto sou eu. 

Afeto é você. 



No estado de afeto. Farta dos (des) humanos.



sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Deixa A Luz Entrar


"Nessas horas é preciso respirar/ 
Feche os olhos e esqueça onde está/ 
Deixa o grito  do silêncio falar/ Ouça/ Ouça/ 
Abra as portas e as janelas do lar/ 
Deixa a luz do sentimento entrar dentro/ Dentro.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021


[...] Aliás, onde estão as borboletas, que desapareceram dos jardins e parques, que não agitam mais suas asinhas coloridas em torno dos pés de manacá ou por entre o capim alto dos terrenos baldios da cidade?

 Será que não concordam com o mau-gosto dos objetos feitos com suas asas e em sinal de protesto contra a estultícia do turista consumidor suicidaram-se em massa atirando-se ao mar? De fato, não há mais borboletas. A última que vi era uma grande borboleta amarela num livro de crônicas de Rubem Braga...


(Vinícius de Moraes)


quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Ela Quer


Ela quer viver sem se alienar
Ela quer provar o fundo do mar
O oceano em si
Quer voar pro céu sem tem que morrer
Quer dançar até o dia amanhecer
Ela quer dormir

Ela se explicou sem ter que explicar
Ela quer morar em outro lugar
Quer sair daqui
E ela quer o mundo pra melhorar
Quer que eu cante algo pra declamar
Nosso amor para alguém
Mas a nossa melodia, eu vou guardar pra nós

Ela quer sentir a lua também
Quer brindar o amor, sem nenhum porém
E vai se entregar
Quando menos vê, vai aconselhar
Quer entender porque vão a procurar
Quer ficar a par

Ela se calou, sem ter que calar
Entra em seu carro pra buzinar
Não quer dirigir
Ela quer ser rica, mas quer doar
Quer que eu cante algo pra declamar
Nosso amor para alguém
Mas a nossa melodia, eu vou guardar pra nós

Ela quer ser rica, mas quer doar
Quer que eu cante algo pra declamar
Nosso amor para alguém
Mas a nossa melodia, eu vou guardar pra nós


Mas a nossa melodia, eu vou guardar
Pra nossa melodia, eu vou guardar
Pra nossa melodia, eu vou guardar... pra nós

(Hotelo)



sábado, 17 de julho de 2021

Formas, cores, espaço, tempo. Aquele que edita, mas antes observa, registra, compartilha. As cores estão longe. 
Distância. 

"Diversidade."

A foto despretensiosa. A imagem que fala.  
Tão longe...
Tão perto.



segunda-feira, 12 de julho de 2021

Nacarato & Moska - Pensando em Você






Sol De Inverno



Faz algum tempo que uma amiga  mandou um carinho por mensagem: Nacarato cantando Onde Anda Você no The Voice Portugal. Um português filho de brasileiros e apaixonado por Vinícius. 

Hoje acordei neste cantinho de Sol de Inverno com Nacarato e Moska. 




domingo, 4 de julho de 2021

O Que Se Quer


Pode falar
Pode escrever
Eu vou me entregar
No meu lugar
Quem não faria
Diz que é loucura
Diz que é besteira
Mas eu não vou ligar
Não tente entender


(Marisa Monte e Rodrigo Amarante/O Que Se Quer)



Bora palavrar...

Nas conversas por aí, voltei a refletir sobre o modo de ouvir de cada um, a interpretação/entendimento que se tem sobre a palavra. O que eu digo, pode ser não ser o que você ouve; o que você diz, pode estar chegando ao meu entendimento de outra (s) forma (s). O que pode ser caminho, pode ser promessa, pode ser um obstáculo, um meio e também pode ser um final.

Em outras conversas por aí, novamente o ponto "eu digo, você não ouve", ou vice-versa.  Ou eu acho que digo. Ou ainda, eu não quero dizer, porque me magoo e o outro. Ou porque simplesmente não quero falar. 

E aí, as palavras se tornam via de sofrimento; logo elas, que ao meu ver, deveriam ser caminhos. Palavras que libertam. 

Continuo lendo/estudando sobre  Psicanálise, porém, não com a intensidade de antes. Acompanho um canal  sobre comportamento e todo esse universo complexo, passando também pela Psicanálise. Logo após a minha fala "por aí" sobre os conflitos em relação às trocas, houve uma postagem de um vídeo sobre o assunto. O graduando expôs exatamente o que eu digo sobre os conflitos. O percurso até a pessoa a se fechar, criar "gatilhos", tanto no ouvir quanto no falar.

Fiz um breve comentário sobre o meu olhar sobre tudo isso. Falar também é cansativo, nos expõe.. Você diz e está ali, inteiro. E apesar de acharmos que temos o domínio de todos os conflitos, podemos cair diante do novo, ou ainda, pela falta de delicadeza ou cuidado ao transmitir a mensagem.  É preciso prestar atenção nos detalhes. Porém, são tantos... você pode se perder.

Em tempo: perder-se também é caminho.

Ainda assim, creio que o mais importante seja falar. Problemas se resolvem  quando as pessoas falam. 
Saber ouvir, ponderar. O que também é processo. 


Para fechar o combo da semana da autoterapia nas madrugadas pós relatórios (vazias de afins), encontrei um filmezinho de 2013 que conta a história de dois professores (de Artes e Literatura) que discutem a relevância da imagem e da palavra. A linguagem escrita e a visual. 

E eu que me apaixono pelos diversos "nós", parei para pensar no tanto que a imagem fala, do quanto a palavra abraça e do modo que eu preciso das duas.


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Pausa nos afins 2


Pausa nos afins 2, devidamente editado, aqui está.

Looping: planejamentos, relatórios, reuniões, fechamento de semestre. O mundo de ponta-cabeça presencial presente no ano letivo remoto.  Se me perguntarem que dia é hoje... só direi se conferir no calendário. 

Mas ouço Nacarato cantando Vinícius. Um e outro podcast interessante. Dormi ouvindo. 
Tem o acervo  viniciano. Não vou sair de lá..
A play não ajuda. Começa,  tiro o fone,  me concentro. Volto, ouço as antigas. A psicanálise explica. Ajuda a compreender.

Vou (sempre) desvirtuando a postagem e falando dos afins, rs. Era pausa nos afins. Mas não vou mudar o título, pois perderá o sentido.

A play vai tocando. Se não pausar os afins, não caminho; se pauso os afins, também não caminho. Então, não pauso e deixo ver o que acontece. Prazos. Datas.  Para que prazos? A vida é pra valer, a vida é pra levar....

Carnavália por dentro, íntima. Repique tocou, o surdo escutou o meu corasamborim...

 O abraço é importante, ainda mais nesses tempos de pandemia.. 

Você existe, eu sei. Você sabe.


Pequena (maior do que eu), te amo tanto, tanto... nossas madrugadas são do tamanho do mundo! Como conseguimos rir, trabalhar, estudar, ouvir música, falar sobre tudo? São as lembranças gostosas que estamos construindo juntas para quando tudo isso passar (menina, preciso dormir hoje).

Saudades do meu pai. Do café. Do meu cabelo preso na barba. De todos juntos.
De minha avó, do abraço dela. Da família.

Todos aqui dentro. 

Mania de falar/escrever "aqui dentro". 


Acaba pandemia, quarentena eterna: vem, vacina! De novo: os prazos, o ir e vir, o tempo! 

                                            Pausando a escrita.  


                                                                                                         Os afins?  Pra que pausá-los?
                                                                                                                      



quarta-feira, 23 de junho de 2021

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Gaivota (Gilberto Gil, 1976)


Gaivota menina
De asas paradas
Voando no sonho
D'aguas da lagoa

Gaivota querida
Voa numa boa
Que o vento segura
Voa numa boa

Gaivota na ilha
Sem noção da milha
Ficou longe a terra
Gaivota menina

Gaivota querida
Voa numa boa
Que o alento segura
Voa numa boa

Gaivota, te amo e gaivotaria sempre em ti
Gaivotar seria poder te eleger para mim
Eu te quero, e se fosse o caso, quereria mais ainda
Ser, eu mesmo, gaivota sobre mim
Sobrevoar meus temores, meus amores
E alcançar o alto, alto, o mais alto dos teus sonhos
Dos teus sonhos de subir

De subir aos ares
Gaivota querida
Gaivota menina
Pousa perto de mim...