Entrevista / Ana Beatriz Barbosa
| Débora Mismetti | FOLHA DE S.PAULO - CIÊNCIA+SAÚDE | 9 jun 2012 |
Um mundo fragmentado e difícil de decifrar é o que as crianças autistas enfrentam.
O transtorno de desenvolvimento, que atinge cerca de uma em cem
crianças, é o tema do novo livro da psiquiatra carioca Ana Beatriz
Barbosa Silva. Conhecida pela série de livros cujos nomes começam por
"Mentes", "perigosas", "ansiosas", entre outros), ela lança agora "Mundo
Singular", em parceria com o também psiquiatra Leandro Thadeu Reveles e
a psicóloga Mayra Bonifacio Gaiato (Editora Fontanar, 296 págs., R$
39,90). Com capítulos permeados por casos reais que passaram pela equipe
da psiquiatra, o livro traz o didatismo de praxe nas obras de Ana
Beatriz. Esclarecer o público quanto às grandes variações que existem
dentro do espectro do autismo é um dos objetivos dela. "Essas crianças
ainda são vistas como débeis mentais, como limitadas. Isso é um grande
erro."
Folha - Qual é a reação dos pais ao saberem que o filho tem autismo?
Ana Beatriz Barbosa - É um momento de desespero, de luto, não por
aquela criança que nasceu, mas pela que eles esperavam que ia nascer. É
preciso ter cuidado com promessas de cura. O que podemos oferecer são
estratégias com embasamento científico, viver juntos as tristezas e
comemorar os avanços.
Como está a detecção do problema no país?
O diagnóstico no Brasil é pouco realizado. As crianças com autismo
ainda são tidas como débeis mentais e ponto, com limites intelectuais e
retardo mental mesmo. Isso é um grande erro. O autismo é um transtorno
do desenvolvimento do sistema nervoso que traz uma gama de
comportamentos diferenciados. Por isso falamos do espectro autista, que
vai desde casos leves até os muito graves.
Como se define o transtorno biologicamente?
Essa criança nasce com um sistema nervoso central diferente, e essa
diferença é na comunicação entre os neurônios, que é mais lenta e
acontece menos. Por isso ela vê o mundo em partes, e não como algo
global. Se você olha para o meu rosto, vê nariz, olhos, boca e já sabe: é
a Bia. É muito rápido. O autista vê nariz, orelha e vai se prendendo
nos detalhes. Isso causa dificuldades de socialização. Mas essas
crianças têm muito afeto, diferentemente do que se pensa. Por muito
tempo, o autismo foi chamado de psicopatia infantil, porque a
dificuldade de socialização parece uma indiferença com o outro, e não é.
Quais as estratégias para melhorar esses relacionamentos?
O autista tem pensamento concreto, você precisa criar manuais para
ele. É preciso treinar o cérebro para abrir conexões que ele não tem. A
medicação é usada para que a criança fique menos hiperativa e mais
atenta a esses ensinamentos. A maior descoberta na neurociência nos
últimos 20 anos é a neuroplasticidade, a gente muda o cérebro de dentro
para fora e de fora para dentro. Os autistas têm o sistema emocional
funcionante. Mas levam um tempo maior para manifestar a emoção. E nos
casos mais graves também há dificuldades de linguagem. Por isso é comum
que crianças com graus mais severos de autismo usem as pessoas como
instrumento: ela pega você e leva até a geladeira para pegar o que quer.
Por que muitos autistas são tão dependentes de rituais?
O mundo é um excesso de estímulos para eles. Se o autista domina
algo, como o caminho da casa até a escola, isso é ótimo para ele. Se
você mudar alguma coisa, causa desespero. Qualquer mudança deve ser
negociada. Boa parte dos autistas é muito inteligente, muitos se
alfabetizam sozinhos. Eles estudam e vão a fundo nos assuntos. E 10% são
savants, têm uma ilha de conhecimento extraordinário cercada por um
mundo de deficiências. São aquelas criaturas que tocam piano sem nunca
ter tido aula, mas não conseguem trocar a roupa sozinhas. Um autista é
incapaz de mentir e de entender ironias. Por isso eles gostam de bichos,
porque eles têm poucas expressões muito simples.
Por que é tão importante detectar o problema cedo?
O diagnóstico feito até os três anos é um divisor entre uma vida
funcional, que não vai ser perfeita, mas em que a pessoa vai poder se
cuidar, ter uma articulação com as pessoas, e uma vida em que isso não
acontece. Pediatras bem informados podem detectar o problema facilmente.
Bebê que se incomoda em ser amamentado é um sinal, assim como demorar
para falar, não olhar para os pais quando falam, andar na ponta dos pés
se está nervoso, não olhar nos olhos. Tudo isso é muito precoce. Um
investimento nos pediatras traria diagnóstico em 100% dos casos antes
dos dois anos, o que seria revolucionário para o prognóstico das
crianças. Os autistas são estrangeiros onde quer que estejam. Nosso
mundo para eles é assustador. Mas nós podemos buscá-los. Quem trata esse
tipo de alteração precisa gostar muito de gente. É preciso exercitar a
solidariedade. E isso faz bem para todos. Para mim, faz. Cada beijo que
ganho de um autista é um grande troféu.