Era uma vez uma garotinha segurando uma "galodinha", a boneca de cabelo amarelinho
E um ursinho de pelúcia, o Peposinho, que também se chamava Peter, de chupeta amarela-vermelha e babador.
Apostava corrida com o imaginário num velocípede azul
Se escondia no buraco da piscina e falava sozinha
Tinha o cabelo cacheado, o sorriso
a gargalhada solta
O amor fluindo.
Era dona de fazendas com muitos animais, boizinhos e cavalinhos
Um cavalinho branco se chamava Pé de Pano, como o do Pica-Pau.
A areia fina, o caminhãozinho laranja e azul, puxado por uma cordinha.
O agarradinho, agarradinho, sempre assim.
No quartel, os seus bombeiros eram casados com moças coloridas e seus vestidos eram feitos de retalhos-
ou de papel
Uma dessas moças se fantasiava de odalisca no carnaval, com gel new wave azul nos cabelos
Era uma roupa cor do sol feita à mão
com folha de caderno.
Os cadernos
Eram três
Um pra mim, outro pra você.
A mamãe fazendo bolinhos e festinhas para batizar as bonecas e brincando como se fosse criança também
Viajando com o lápis de cor e a canetinha Baycolor que apagava como mágica.
O cine drive-in desenhado, os três no carro, a tela do cinema que parecia tão grande... o avião voando baixinho, indo e vindo do Galeão
Na Ilha do Governador.
Papai chegando no carro com o beirute
Coca-Cola no copo de papel
Ela dormindo no banco de trás do carro.
E o Belvedere!
Ele fechou e ninguém ficou sabendo...
Aquele dia que não deixou rodar e ela ficou tão triste, mas depois entendeu que aquele moço que estava no meio das outras crianças no carrossel poderia ser "mau".
Ela arrumava casinhas e sonhava em morar em todas elas; fazia comidinhas com pedrinhas, folhas e afins. Brincava com ela mesma e com o mundo. Um dia, pediu um irmãozinho: ganhou dois de uma só vez.
Escorregou, correu, balançou
Caiu da bicicleta, prendeu o dedo, o calcanhar
Muitas vezes...
Muitas vezes
Ela contava histórias, estrelas
E borboletas
Esperava as Onze-horas amanhecerem (na hora errada)
Escrevia nas paredes do quintal com o vidrinho de água observando as palavras sumirem com o calor do sol.
Aprendeu a ler nos gibis e nas imagens do Saber em Cores,
No O Mundo Colorido da Criança
E com as Mãos Mágicas
Nas embalagens, nas placas, nas músicas.
Foi heroína; foi todos os personagens
Queria ser bailarina, mas alguém disse que o pé da bailarina não era muito bonito (que maldade!)
E ela nem quis mais
Mas ela continuou girando
E sendo todas as meninas que ela era
Com todas as suas melodias.
Depois de bailarina, ela quis ser pianista, astronauta
Professora
De bonecas
E de gente de todos os jeitos
Aprendeu a escrever
E nunca mais parou.
Ela não cansava nunca
Não cansava nunca
Não cansava
Não...
Ela era, ela é...
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