quinta-feira, 24 de março de 2022

Futebol e afins


Na terça pela manhã, recebi um comunicado sinalizando a chegada de um novo aluno para o dia seguinte. Não entrarei em detalhes sobre o encaminhamento do mesmo, sobre quantitativo de alunos/vagas disponíveis, ou mesmo condições de atendimento. Escrevo  sobre o que não se explica: afinidade.



Ao lado da mãe, apresentava instabilidade emocional acentuada. Entrou sem interagir com ninguém. Procurou carrinhos; respondi que não havia nenhum. Procurando bem, encontrou um carrinho de plástico antigo, daqueles com um barbante amarrado na frente. Perguntei se queria ver a caixa de blocos coloridos. Quis ver, mas, sem demonstrar interesse. Agitado, nitidamente ansioso, sem fazer contato visual, entre espirros de uma possível alergia e mastigando os últimos biscoitos do pacote, eu explorava as poucas oportunidades  de interação, enquanto tentava junto à equipe  estabelecer uma conversa tranquila com a mãe do aluno. 

Enquanto ouvíamos o relato da mãe do aluno, fazíamos a relação com o comportamento do mesmo. A dificuldade em aceitar o "não", compreender comandos, a agitação, conflitos familiares. Deitava no chão, tirava o calçado, arrastava a cadeira, falava alto. 

A equipe pedagógica reunida na sala e eu interagindo com aluno; ao mesmo tempo explicando a proposta de trabalho e sinalizando a relevância da participação dos familiares no processo de adaptação. 

Passa um carro na rua fazendo barulho. O menino fica mais agitado me perguntando com a fala desconexa sobre o modelo, marca, cor do carro. Pensei: encontrei um centro de interesse! 

Respondi de forma direta que não havia como saber, pois eu também não pude ver o carro, já que estávamos dentro da sala. E o menino ficou me observando. 

Ele levantou, andou pela sala. Olhou as paredes, mexeu no meu chaveiro da Copa de 2014 (sim, uso o mesmo chaveiro desde a Copa). Passou a mão sobre os móveis e no cadeado que fecha um dos armários, do Fluminense, por sinal. Eu observando, pois não queria sufocá-lo. 

O aluno falou comigo em voz alta, de longe: "Você é Fluminense?"

"Sou sim. Você conhece o Fluminense? Torce pra ele também?"

Ele me respondeu um sim com força enquanto a mãe já estava dizendo que ele não torcia para o Fluminense, que não era verdade.

"Torço sim! Sou Fluminense sim!" Insistia.

Eu, sorrindo por dentro tive a certeza que o vínculo já estava formado pelo simples detalhe do cadeado tricolor que despertou o interesse do menino.

Passou a me solicitar, fazer perguntas. Algumas com certa lógica, outras nem tanto. E eu ali,  com um aluno que aparentemente compreendia o mundo, apesar de até aquele momento não aceitar nenhum de contato afetivo, social, nenhum tipo de regra ou comando.

A partir da descoberta do cadeado, o menino pegou minha mão e respondeu todas as minhas solicitações. E repetia: "Sou Fluminense sim, com você! Eu sou Fluminense!"

Do mundo paralelo, eu ouvia a histórias sobre o comportamento do aluno no ambiente familiar, as reclamações, a falta de expectativas da mãe, o atraso no comportamento, a agressividade, a falta de terapias e rotina, a forma que os familiares lidavam com o contexto.  Não ouvi em nenhum momento algo que dissesse que aquele menino EXISTIA. Sim, as questões familiares estavam influenciando diretamente no comportamento do aluno. Talvez o cansaço, as frustrações. Certamente, uma família com muitas dores, muitas cicatrizes. 

De mãos dadas, aproveitei o momento para fazê-lo guardar os blocos, limpar a mesa, calçar o chinelo, explicar que o chão estava sujo, que a cadeira que escolheu para sentar estava quebrada e não era adequada. E ele foi ouvindo, e às vezes, sorria, enquanto eu pensava no mais importante:  o respeito pela pessoa que estava ali.

Percebi que ele identificava as cores, que gostava de carrinhos, motos de brinquedos e automóveis de verdade. Descobri que ele passava horas falando sobre carros. Que apesar de não conseguir fazer suas tarefas sozinho, compreendia os comandos, apesar de não aceitá-los. Que era capaz de ser doce, afetuoso, generoso. Nas entrelinhas.

Ao sair, a mãe lembrou de um pequeno detalhe: a avó do menino torce para o Fluminense. Essa avó é a pessoa que participa da educação do menino. Acredito que o mesmo tenha feito uma associação positiva, entre ela, eu e o futebol.

Ao sairmos, ele me abraçou sem ser solicitado, sem que nenhum adulto exigisse. Aquele abraço torto de que tanto falo, pela cintura, de lado. Acho que é uma regra receber esses abraços que são carinhosamente desajeitados.

Para finalizar, aquela pergunta clássica de um dos adultos  para a criança: "Gostou da professora?".

"Gostei muito".

Insistem. 

"Gostou mesmo?"

Ele, de novo, quase impaciente:  "Gostei muito dela!" 



Sobre o encontro, posso que afirmar que não é só futebol.



Considerações:

1. A família ainda não fez o retorno. Descobrimos que residem distante da escola, e talvez seja um dos motivos para que abram mão da matrícula e procurem um local mais próximo.

2. Um acompanhamento eficaz e constante (clínico e terapêutico) influencia diretamente no desenvolvimento do aluno. Mas, independente do sucesso das terapias (ou da falta dela), como negar a pessoa em si, a personalidade, a criatividade, o senso de humor, o afeto? 

3. O esporte agrega, assim como o futebol. Desconsideramos a violência, o fanatismo, a competição e espírito destrutivo; ao contrário: valorizamos a amizade, a superação, a excelência, a determinação, a igualdade, coragem e a inspiração (Valores Olímpicos e Paralímpicos). O esporte não deve se restringir às aulas de Educação Física. A reflexão pode mudar hábitos, atitudes, costumes enraizados estabelecidos pelo simples fato de repetir o erro dos outros. 

4. Família e escola precisam estar conectadas.  Ações complementares.




Próxima parada: Sobre o Duda e a inspiração.


             

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