segunda-feira, 17 de maio de 2021

E por falar em saudade (1)

"Ela gostava de cantar o dia todo, fazendo as tarefas de rotina da casa."

Nasceu em Minas Gerais, na divisa com o Rio. Uma vida sofrida, em todos as etapas, em todas as instâncias, por imposição e talvez em alguns momentos por opção, pela melancolia que cada um traz dentro de si, na forma de lidar com o eu e com o mundo. Mas aqui não cabe a dor, ou o lado ruim das coisas, o que passou e machucou, os achismos. 

Intensa, visceral, 8 ou 80, ciumenta, ou como ela mesma definiria, "leonina". 

Mas ela cantava o dia todo, como eu disse. E fazia coro com uma outra que também é minha parte.  Pelo que sei, do que diz essa outra que também é minha parte (minha mãe), se a figura paterna foi a referência para as letras, a materna foi para as artes, para a música. Tudo isso que nos faz "ser e ter"  sentimento genuíno, o que vem aqui, de dentro. 

Aprendeu a ler para ler a Bíblia, e era bonito de ver. E tantas histórias que eu poderia contar aqui. Do abraço apertado dela, das orações, de falar do meu cabelo cacheado, daquele jeitinho com a minha Larissa, brincando que queria levar o Ken embora (o boneco, que depois ela deu outro de presente).

Não saía da casa de minha vó sem uma lembrança, um mimo, nem que fosse uma flor, um doce, ou uma caneca com o nome dela (rsrs): CECÍLIA.

Como explicar as semelhanças? Será que tudo se resume ao DNA, ao que se define geneticamente? 
E aquilo que adquirimos sem mesmo a convivência diária, em tempos distintos?

Foi numa conversa sem querer num sábado daqueles na casa da minha mãe que começamos a falar do Vinícius. Ahhh, eu me lembro das coleções de LP antigos, muitos do Roberto Carlos e até um LP dos Fevers que eu peguei emprestado para copiar numa fita k-7. Mas eu não me lembro de ver nada do Vinícius de Moraes ou do Tom. 
Mas aí, conversa vai, conversa vem, e aí começamos a falar dos tios, dos primos, e caímos na origem dos nomes, e aí lembra de uma coisa e outra. Daí vem a explicação do motivo que meu primo tem como segundo nome Vinícius. Minha mãe escolheu o primeiro (Alexandre) e minha avó o segundo, por causa do de Moraes.
Hoje eu queria uma foto daquele dia, da minha cara de boba pensando "mais essa na conta de semelhanças"! E ficamos de mãos dadas, rindo e eu falando com a minha mãe, achando a maior graça do mundo!
Eu não conheço pessoas que gostem do Vinícius como eu e ter referência familiar nisso tudo é importante, apesar de parecer infantil. Gosto que as cores sejam assim, da minha parte, daquilo que veio de algum jeito desse "nós" que talvez nem a ciência ou convivência explique.

Acho que esse é  o ano de repetir a palavra saudade para reverenciar com amor àqueles que amamos, que ficou eterno.

E por falar em saudade, onde anda você? 
Obrigada, vó Cecília, por tudo. 
Saudade do teu abraço...

De Cecília para Vania, de Vania para Vanessa, de Vanessa para Larissa. 💓


quarta-feira, 12 de maio de 2021

Que dia é hoje?



Ontem.
Aquele instante.
Pequeno,
Só você viu.
Antes.


Hoje é tempo. E meu tempo é quando, como disse o outro que rabiscava poesias.
Tempo presente,  moderno, recente, atual, neste momento. 
Agora.


Amanhã. Futuro. Destino. 
Depois.


sexta-feira, 7 de maio de 2021

"Saudade existe para quem sabe ter..."


Faz um bom tempo que não escrevo. Ou melhor, escrevo e não posto. As mensagens dormem: aguardam possíveis edições, começam a acumular, ficam aqui perdidas e restritas ao meu acesso. Leio, acrescento duas ou três palavras, edito mais um pouco, salvo. 

Aos poucos irei aparar as arestas das palavras.

O que é engraçado, pois as "muitas Nessas" me assustam um pouco.

Muita coisa aconteceu em 2020 e lendo o que não foi postado vejo o quanto foi arrancado e o outro tanto que não vai sair nunca de dentro. Aquilo que nasce e que fica eterno. 

"Sou água de rio que vai para o mar..."

Que é e  não deixa de ser, a essência que fica. Mesmo as palavras não ditas são sentidas. 

Como tem sido bom sorrir, sorrir junto, sorrir para o ato terapêutico. Sorrir sem compromisso, "sem plateia, sem obrigação de". 

Escrevo de novo, de novo, de novo...  a vontade de voltar a  partilhar.

A cada dia , uma certeza, 

"Saudade existe para quem sabe ter

 É a verdade que me faz viver..."



terça-feira, 12 de setembro de 2017

Eu quero a do mundo real





Hoje estávamos conversando sobre a novela Novo Mundo, fazendo um link com o contexto histórico, aproveitando o gancho da data (7 de setembro). Sabendo que P. já havia produzido sua sinopse, deixei que falasse do capítulo referente aos dias 6 e 7. A conversa estava animada! Os colegas interagiam,  reclamavam que a novela estava acabando, misturavam as emissoras e programações. Mas P. firme no propósito que Thomas é o vilão e vai pagar por tudo o que fez... rs

No segundo momento, pedi que P. procurasse fotos referentes à novela na pasta de documentos que utilizo para organizar as  atividades. Ele ficou fascinado!  Imagens de Leopoldina, D. Pedro, D. João, D. Carlota Joaquina, José Bonifácio, Chalaça, D. Miguel, personagens da história e da ficção. Pedi que me auxiliasse organizando-as. Claro, P. cortou e organizou as imagens com felicidade e rapidez.

Ao terminar, me olha atravessado. Pede uma "foto" da Leopoldina. Enfatiza: "Mas eu quero a Leopoldina REAL". Fingi que não havia entendido, mas compreendi sua lógica.

Ele estava se referindo à atriz Letícia Colin... s2

😍

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O retorno de Jedi (da Astrônoma com formação em homo sapiens)





(...) Aí alguém me pergunta algo sobre TGD, ou melhor, sobre TEA (as nomenclaturas mudam). Me dou conta que o BORBOLETA ASPIE está ABANDONADO! 

2016 foi um ano (está sendo ainda)  de mudanças, crescimento e muitas realizações. Um ano de escolhas, de encontro  no sentido de me preocupar mais comigo mesma do que com os rótulos. Um ano de abraços intensos, de saudades mais intensas, de (re) encontrar amigos no tal caminho e  de contabilizar na ponta do lápis o fruto de anos de trabalho.

Aí vem a poesia: hoje alguém postou uma imagem que falava muito mais que mil palavras (clichê, não?). "Mas você só dá aulas?" Resposta ácida: "Você quer que eu dê mais o que? Um rim?" Fiquei pensando na minha resposta, caso ouvisse essa mesma pergunta de algum ser humano bem educado que manifestasse o tal complexo de majestade na minha  humilde presença... 

Dar aulas. Dar amor. Doar seu tempo, seus interesses, seu sonhos. Dividir suas expectativas entre o desenvolvimento da sua pequena  gigante e dos pequenos enormes que você apenas "dá aulas". Dar aulas é para os fracos. O que eu faço, dentro das minhas possibilidades, não tem nome.


Recebi no ano passado na |SR mais um pequeno, o P. R. (sem nomes, melhor assim). Aquele mesmo menino  que ainda era uma criança quando cantou Tom Jobim para mim na Sala de Recursos: " Se eu pudesse, por um dia, esse amor essa alegria, eu te juro, te daria, se eu pudesse esse amor por um dia..." Para quem esqueceu, P.R. é aspie, o que o torna especialmente fascinante!

Esse ser humano (esse sim deve ser chamado de HUMANO) que me apelidou de Astrônoma, e que hoje, quando fica chateado por alguma coisa que saia do seu controle, me chama de Laurinha Figueiroa ou Carminha. Aí sentamos, conversamos e ele responde que nós temos direito a pelo menos um dia de mau humor na vida. Simples assim.

Essa postagem, como tantas outras, estão aqui esperando alguém  clicar no botão "publicar".
Onde estão Chronos e Kairós?

"O melhor instante no presente: o instante em que se consegue afastar o caos e abraçar a felicidade". 



domingo, 16 de novembro de 2014

O azul, tão azul...



Penso em você
É uma canção 
Que eu não consigo esquecer

Penso em você
E é um livro
De um amor que não se lê

Penso em você
E acho que nunca saberia rejeitar
Um pensamento assim
É o perfume na memória do prazer

Penso em você
Há tanto pra contar
E há tanto pra viver...



Penso em você  
Por entre as telas
Pelos quadros de Matisse

Penso em você
Em um soneto ensolarado de Vinícius

Penso em você
E essa paisagem
Em cada passo mais bonita
Se revelará
E acho que até hoje
Dela não saí

Penso em você
Há tanto pra contar
E há tanto pra viver...

(Memória do Prazer/Jorge Vercillo)


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Eu quero ter um MILHÃO de amigo(s)...


Flor do cupuaçu*
                                                          

Hoje amanheceu aquele típico dia céu cinza cor de tragédia que minha mãe falava quando eu era criança. 
Você acorda com aquela sensação de céu cinza por dentro e por fora. Aí o dia vai se desenhando e você vê que ele não é tão feio quanto parecia ser. Mas foi bem feio no ano pasado.

Recebi a notícia ao sair da escola, no fim da tarde. Recebi sem querer, por acaso, mas foi melhor assim.
Uma amiga soube e não quis contar... eu havia falado sobre um sonho esquisito, sonho com um velório que eu não conseguia ver quem era. Outra amiga, sem saber que eu não sabia, comentou o que havia acontecido. Não acreditei, voltei para a escola. Perguntei para a outra amiga: ERA VERDADE. Passou um filme, claro. Dois, três, quatro. O atucanado, o milico. Meu enquadramento, meu quase desenquadramento se eu dependesse dos abonadores. Meu TCC enrolado sem desenrolador (orientador). Depoimentos (adiós, Orkut), puxão de orelha, brigas por causa do bom futebol, filha doente, filho doente, conversas sobre a rede, conversas sobre a escola, pesquisa, dúvidas, viagens, livros, políticas, sonhos, ideais, teorias, poesias, Chico, Vinícius,  taaaaaanta coisa!

Eu não acreditei, Procurei pessoas certas que saberiam. E souberam. Disseram aquilo que eu não queria ouvir.

Eu havia apagado uma parte dos emails no final de semana. Mas ainda bem que guardei outra parte. Minha caixa estava cheia, assim como o celular. Larissa e os sustinhos de setembro, mensagens de apoio para mãe e filha. A última mensagem no celular, eu guardei. Pedia notícias dela. Meu último email, escrito na noite do dia dois de outubro não foi respondido. Eu sabia que havia algo estranho. Aquele empate amargo e a sensação de que "hoje não vamos brigar, juiz não apelou" não foi sanada. 

Acredito que algumas pessoas não entendam o motivo pelo qual Emílio era tão querido, visto que seu modo peculiar de "amar gente" priorizava dizer a verdade (e algumas pessoas detestam a verdade). Acho que falta isso hoje em dia, coragem para se dizer certas verdades. Não confundir de forma alguma a verdade com excesso de sinceridade (falta de educação) ou espalhafatosisses do cotidiano. 

Não, não estou propondo a instituição de mais uma santo no calendário (será que já existe um São Emílio?). Não. Mas esse aí era (é) gente fina, puxa uma cadeira, pega mais um copo (o meu de água ou refri) e vamos prosear!

Me lembro do dia em que ele perguntou se eu pintava o cabelo. Coisa mais indiscreta. Na época eu brigava com as tintas, dos cabelos e da vida. Respondi que sim, e depois ganhei um apelido chato que não vou socializar, visto que eu era associada a uma bebida ruim que dava dor de cabeça. Isso só porque eu via semelhanças físicas do indivíduo com vários personagens importantes da nossa história: Castor de Andrade, Clodovil, até um suricate simpático! 

Agradeço a Deus pelas confusões do meu enquadramento na rede. Sem o caos do enquadramento, talvez ele não tivesse se aproximado. Até hoje não sei explicar, pois quando vi já havia uma mensagem do "amigo" na minha página do Orkut. Achei um barato, ninguém entendeu nada (era todo bloqueado). Foi assim...

Emílio me auxiliou muito nesse caso (assim como ajudou na rede municipal a torcida do Fogão, do Fluzão e as demais que não citarei no meu humilde blog). Era um Bota x Flu as postagens nas comunidades. Desvirtuávamos qualquer tópico. A política,  uma paixão.


Quando soube o nome dos seus pequenos, achei graça na concidência: o nome da menina dele seria o nome da minha Larissa, mas eu escolhi Larissa (e ponto). O nome do menino era o nome do meu menino no tempo que eu não sabia que seria mãe de menina.

E à mamãe dessas crianças,  somente aplausos...

Eu estava concluindo a segunda especialização, sem orientador, arrancando os cabelos. Pena que deletei o email explicativo. Grifos em vermelho, delicadamente me perguntavam "que bagunça era aquela, você tem dois capítulos truncados!" Reorganizei o trabalho e ficou muito bom. Não mostrei a ele a dedicatória, porque nessa época eu não havia migrado para o Face (como todo o planeta fez, menos eu e mais quinze pessoas). A política já estava tomando muito espaço e eu de longe, nesse período, falava pouco, apesar da constante presença virtual.


O dia três de outubro foi o "fim". O dia quatro de outubro foi gigantesco. Difícil. As pessoas reunidas ao redor das sementes plantadas durante toda a vida. 

Hoje estou aqui, somando esforços com outros que ainda não desistiram desse negócio complicado que nos fascina chamado "educação" . Como o "outro" disse (Marcelo Freixo), a forma de manter uma pessoa viva é continuar fazendo aquilo que essa pessoa fazia. Sementes, sempre presente. Emílio, sempre presente.

O velho milho, o velho amigo. Emílio Luiz Pedroso Araújo.






*http://come-se.blogspot.com.br/2011/10/frutos-marajoaras.html







sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Apenas conversas 1




                                                               

Ele sentou. Os olhos estavam voltados para os brinquedos da sala. Queria brincar. Talvez não tivesse brinquedos ou mesmo com quem brincar (digo brincar, como brincávamos antigamente).

Depois de falar sobre todas as amenidades possíveis, começamos a falar sobre a família. Ou a falta dela.

-Minha mãe me jogou fora, dizem que ela não tinha condições de me criar. Minha avó me pegou para criar. Sim, eu tenho irmãos. Pai eu não tenho, não. Tem o D. , ele é o meu pai, ele mora lá na rua.
O menino não soube explicar muito quem era o "pai", um vizinho ou amigo, talvez.

Não identificou uma cor, um número, uma letra, uma forma geométrica, nada. Nomeou alguns desenhos preferidos, filmes de morte, luta e do Chucky, o que degola cabeças. Mas disse em seguida que não queria fazer isso com ninguém, "pois quem faz isso com o colega vai para o chão, debaixo da terra."

(...)

 Perguntei:
-Você não faz a atividades, não presta atenção no que a sua professora fala, parece que não gosta da escola...
- Mas eu não gosto mesmo. Eu venho porque sou obrigado. A minha avó me obriga a vir pra cá. Eu queria ficar em casa. Na rua, lavando carro, eu arrumo dois mil...
- Dois mil? Ah, não, dois reais, né?
-Dois não, tia. Três. Na verdade, eu ganho oitenta. Gasto tudo, compro besteira.
- Mas você não quer aprender a ler, entender o que você escreve, o que está ao seu redor? Crescer, estudar mais, trabalhar?
- Queria ser bombeiro. Mas se tiver que ler, escrever, quero mesmo é lavar carro.
- E quem vai ler pra você? Quem vai escrever? A sua avó? Ela não vai poder fazer isso para sempre...
- Vai sim, vai sim, ela vai ler e escrever para mim!
- Então me diga: porque você não faz nenhuma atividade?
-Por que eu não tenho lápis...
-Não seja por isso, eu te dou um!
- NÃO ME DÁ NÃO, NÃO QUERO NÃO, TIA! SE VOCÊ ME DER, EU VOU TER QUE FAZER O DEVER... E EU NÃO VOU FAZER...








quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Rubem Alves







"O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem" (Rubem Alves).







sexta-feira, 13 de junho de 2014

PARA UMA MENINA COM UMA FLOR



Minha namorada, Chega de saudade, Eu não existo sem você, Onde anda você. Todas vinicianas. Todas "muitas Nessas."
Mas hoje,  dia 12, eu vou de Menina com uma flor, com direito a livro/autógrafo do grande poetinha  (achado do meu caminho que garimpa o real valor da poesia).










Eu encontrei primeiro a Minha Namorada; depois a Menina com uma flor. Ambas feitas para uma das muitas mulheres de Vinícius. Bonito de ler e ouvir.

Atual, eterno, simples e lindo.




Para uma Menina como uma Flor

Vinícius de Moraes

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.



Vinícius de Moraes
Para uma menina com uma flor
3º edição  Editora do Autor

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Educação é receita que nunca é demais


Às vezes acho que o blog não deveria mais ser aspie, visto que atualmente, quando sobra tempo e inspiração eu rascunho sobre tantas outras coisas . Ando de "ɐɔǝqɐɔ ɐʇuod". Mas esse é o meu normal! Por isso modifiquei a descrição do blog, para ter a liberdade de continuar falando sobre o TGD e ao mesmo tempo sobre tantas outras coisas que me trazem as tais cores (e quem sabe possa trazer cores para tantas outras pessoas do bem que passarem por aqui).

Mas hoje não falarei de cores (não, não é plágio da música que fala de flores). Essa semana foi uma semana pesada,  momento de reafirmar convicções e valores, desconstruindo alguns pensamentos estabelecidos e repensando o cotidiano sob o olhar do mundo real. Muitas reflexões sobre (o caos da) educação. Em 2015 completarei quinze anos de magistério (catorze na mesma escola na rede pública de ensino). O que mudou? Porque mudou? São tantas perguntas, tantas respostas baseadas em teorias. E nenhuma delas me respondeu  nada até o momento.



Fica a dica. ;)

terça-feira, 3 de junho de 2014

Qualquer dia, qualquer hora...

A gente se encontra, pra falar de amor!
Dá-lhe, Ayrão!


Olá- para quem gosta de ler o Borboleta Aspie  (e também para quem não gosta, hehe)! Se está aqui, perdido ou achado, dando uma olhadinha ou realmente interessado, de qualquer forma ou jeito, olá!

Minha última passagem por aqui foi em  fevereiro. Disse que voltaria já, mas esqueci de voltar. Esqueci nada! O blog ficou num canto, meio emburrado, mas ficou. As prioridades gritaram e eu não hesitei em ouví-las. O interessante é que os acessos estão bem altos para um pequeno blog que ultimamente caminha devagar, sem pressa. Mas é bom! Alguém está lendo os meus devaneios (nem tão devaneios assim).



Quem diria... eu achei que conseguiria ficar aqui por mais tempo.
Mas ainda não vai ser hoje.